Desde a segunda metade do século XIX a ornitologia brasileira não dava
uma contribuição tão significativa para ampliar o conhecimento sobre a
biodiversidade: 15 novas espécies de aves da Amazônia nacional foram
identificadas. Elas serão formalmente descritas pela primeira vez numa
série de artigos científicos previstos para serem publicados em julho
num volume especial do Handbook of the birds of the world, da espanhola
Lynx Edicions.
Onze das novas espécies são endêmicas do Brasil e quatro podem ser
encontradas também no Peru e na Bolívia. Oito ocorrem somente a oeste do
rio Madeira, na parte ocidental da Amazônia; cinco habitam
exclusivamente terras situadas entre esse curso d’água e o rio Tapajós,
no centro da região Norte; e duas vivem apenas a leste do Tapajós, no
Pará, na porção mais oriental da floresta tropical.
No volume especial do Handbook, os autores descrevem a morfologia
(formas e estruturas), a genética e a vocalização (canto e sons) das
novas espécies. Por meio de mapas específicos para cada espécie, mostram
ainda seus locais de ocorrência. No entanto, até que o livro seja
oficialmente publicado, o nome científico e alguns detalhes sobre a
anatomia e o modo de vida das novas espécies não podem ser divulgados.
Dessas aves até agora desconhecidas e sem registro na literatura
científica, a maior e mais espetacular é uma espécie de gralha, do
gênero Cyanocorax, com cerca de 35 centímetros de comprimento, que vive
apenas na beira de campinas naturais situadas em meio à floresta
existente entre os rios Madeira e Purus, no Amazonas.
“Essa gralha está ameaçada de extinção”, diz Mario Cohn-Haft, curador
da seção de ornitologia do Inpa, principal descobridor do
cancão-da-campina, nome popular cunhado para a ave. “Seu habitat está em
perigo e podemos perder a espécie antes de ter tido tempo de estudá-la a
fundo.”
Sua principal região de ocorrência é um complexo de campinas, distante
150 quilômetros ao sul de Manaus, numa área próxima à rodovia BR-319,
que liga a capital amazonense a Porto Velho. A estrada está sendo
reformada e os pesquisadores temem que o acesso facilitado ao local
coloque em risco o hábitat da espécie.
“A nova gralha também ocorre numa zona de campos naturais no sul do
Amazonas, próximo a Porto Velho, onde há muitos colonos do Sul do país,
que a confundem com a gralha-azul [um dos símbolos do Paraná]”, diz
Cohn-Haft.
Por Marcos Pivetta - Agência Fapesp